quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A Indústria da celulose

Olá de novo

Após o visionamento do e-mail anterior, que recomendo vivamente, não consigo deixar de pensar em expressar umas ideias que me vão ruminando por dentro... e que nem foram tocadas nessa informação...

Começaria por acrescentar que este negócio dos incêndios não é só dos madeireiros, mas directamente das celuloses.

O problema é muito mais complexo.

Não estou a falar de incêndios em zonas de serra com mato, para renovar o pasto para o pouco gado que ainda subsiste, e faz aquele queijinho, com aquele sabor serrano, que tanto apreciamos.

Estou a falar de incêndios em zonas e pinhal e de mata autóctone, para a substituição por eucalipto.

Estou a falar dos incêndios nos próprios eucaliptais, para que as celuloses paguem um preço inferior e produzam o mesmo papel.

Já se perguntaram quem tem dinheiro para pagar a uma avioneta que por tantos é relatada vista passar antes de um grande
incêndio?
Com certeza não será um "incendiário" com problemas psicológicos, ou uma família que ainda tem o raro costume de ir buscar a mãe velhinha ao lar, para ter um agradável piquenique à sombra de umas escassas e frondosas árvores ...

Já repararam naquela espuma amarelada e peganhenta nas nossas belas praias? Naquele cheiro nauseabundo que invade as nossas casas quando o vento muda de feição?
O problema é que o preço por entrarmos para a CEE está à vista - termos o refugo da indústria mais destruidora e poluente que ninguém quer nos países desenvolvidos - as celuloses e as cimenteiras.
Temos as nossas belas e escassas serras de calcário desventradas, basta passearmos nos nossos "parques naturais", ou ir ao "Google Earth" para vermos as extensas e numerosas crateras brancas. Somos o fornecedor de cimento e de celulose da Europa e temos subsídios abundantes para o eucalipto e para transformar zonas agrícolas em floresta.

As primeiras leis que surgiram do eucalipto, quando os nossos activistas se faziam ouvir, restringiam o eucaliptal às zonas menos produtivas, obrigavam a faixas de outras folhosas, a rotações mais espaçadas, a afastamentos de áreas agrícolas, galerias ripícolas, zonas de infiltração, fontes, etc. Começou-se de mansinho...discretamente...mas estas leis já eram! Vieram os subsídios, primeiro à descarada para o eucalipto, depois dizia-se que eram só para a floresta de crescimento lento. Mas lá no fim da lista das espécies subsidiadas, aparecia sempre o Eucalyptus globulus, (que nada tem de lento ou de autóctone). As leis foram sucessivamente alteradas e recentemente até já se chegou ao ponto de mudar a própria Lei da Reserva Agrícola Nacional (RAN)!!
Ou seja, os únicos solos que nos restavam bons para a agricultura, (que são tão raros no nosso país), podem ser eucaliptalizados...

Quando vamos de Lisboa para o Porto, a paisagem que outrora era diversificada, um mosaico agrícola e florestal, agora é cada vez mais uma monocultura intensiva de eucalipto...

Os resquícios de mata autóctone, diversificada, com os nossos sobreviventes carvalhos que outrora povoavam o território, e até há poucos anos estavam restringidos às vertentes mais inclinadas que o homem não cultivava, e entre as sebes vivas dos terrenos agrícolas, fonte de biodiversidade para o equilíbrio ecológico, controle de pragas, refúgio e alimento da avifauna, vão desaparecendo a pouco e pouco, dizimados pelas poderosas máquinas do eucalipto que destroem tudo à sua passagem: vegetação, relevo, solo... para plantar as tais árvores australianas.
Árvores que são tão competitivas que aquele cheiro intenso a eucalipto não é mais que a inalação dos seus herbicidas naturais que não deixam criar o sub bosque e a biodiversidade, e nada têm para oferecer à nossa avifauna, secam as nossas fontes, esgotam os nossos solos, com períodos de rotação intensivos de 9 em 9 anos!...isto quando não são mais cedo cortadas ou queimadas...

Os eucaliptais são desertos botânicos, faunísticos e humanos.

Na floresta, já não há bagas nem bolotas, a fauna foi escorraçada para as zonas agrícolas, que de noite, vão à procura de alimento. Muitos animais morrem atropelados, envenenados...caçados...transformamos, alteramos tudo, sempre só a pensar em nós, mas no fundo esquecemo-nos de nós e dos nossos filhos.

E a monocultura do eucalipto vai avançando: cume, encosta, vale, mata, pinhal, olival, vinha, pomar, terreno agrícola, vai tudo...a seu tempo, vai tudo! Dizima a nossa cultura, leva as pessoas a abandonar os campos e a aumentar a população das cidades, a perdermos os nossos saberes...a transmissão dos conhecimentos de pai para filho...

Neste momento as frutas caem na terra e ninguém as apanha, não é rentável, não há escoamento...os supermercados estão repletos de fruta espanhola ou francesa vinda de bem longe... e tanta aqui tão perto, a ser substituída por eucalipto...

Está tudo errado...gasta-se imensa energia em transportes, e mais poluição...
E quando o preço do combustível voltar a aumentar? Ou mesmo acabar? Será que vamos comer eucalipto?!

Quem governa, muda as leis e no dia da árvore planta um eucalipto!? Será que não somos capazes de pensar por nós próprios? No nosso próprio bem? Temos de nos sujeitar às normas europeias e acabar com o pouco que nos resta?

Fui visitar uma exploração agrícola biológica, o Agricultor, disse que para pedir um subsídio para comprar um tractor tinha de omitir que iria criar mais 4 postos de trabalho, porque as directivas são para uma maior eficiência (?)...
E temos tantos desempregados...

Onde está a nossa agricultura? A nossa própria subsistência? O que faremos numa altura de crise?

Uma professora de História dizia nas suas aulas que D. Fernando e sempre que um Rei investia na Agricultura, o país saía da crise, crescia economicamente. A base do desenvolvimento estava garantida. Era uma forma de fixar as pessoas à terra e de se produzir riqueza, sustento. Sim, porque uma exploração agrícola não enriquece, mas dá sustento, várias produções por ano e diversificadas, e não é precisa muita área para tal, tem de se investir na melhoria dos solos com estrume, etc, para que estes produzam, para que não se esgotem. Nos eucaliptos é até aos solos não produzirem mais, por isso avança-se agora para os solos da RAN, os outros já (d)eram...

Uma pessoa mesmo que tenha muitos eucaliptais tem de arranjar outra forma de ganhar dinheiro, não "pode ficar a ver o pau a crescer!" - como dizia o nosso Gonçalo Ribeiro Telles (o criador da "verdadeira" RAN). E assim se abandonam as terras e crescem as cidades… e os desempregados...

Se continuamos neste ritmo de destruição da nossa economia, da nossa paisagem, da nossa cultura, seremos pobres, bem pobres... já não teremos nada para mostrar a não ser a nossa pressionada costa de mar, e o "casco antigo" de algumas aldeias despovoadas. Portugal será todo igual, de um verde metálico, escuro e opaco, rasgado por pedreiras brancas e cidades. De Norte a Sul, apenas notaremos algumas diferenças de relevo.
Já foram realmente até ao Porto de carro? Com olhos analíticos? Quando reina o eucalipto, está tudo escondido ou despovoado, as paisagens já não se abrem, perdeu-se o mosaico reticulado e diversificado, perdeu-se o vermelho outonal e o colorido primaveril...
Perderemos a ligação à terra...
Já alguém fez caminhadas em eucaliptais? Será o futuro?

Se não mudarmos o rumo, perderemos definitivamente as nossas referências, a nossa própria identidade...



Pensem nisto...

Um abraço

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